A fisioterapia na Saúde da Mulher



1 - Quais são os riscos de uma gravidez depois dos 35 anos?

16 - Os riscos para a saúde da mãe aumentam com a idade desta ou são apenas riscos para os bebés?

A partir dos 35 anos o risco de complicações na gravidez aumenta, mas a maior parte das mulheres que têm filhos depois dessa idade não tem qualquer problema. Após os 35 anos é mais difícil engravidar, a mulher tem menos óvulos e é menos fértil.
Em todas as mulheres o risco de aborto é maior no primeiro trimestre da gravidez. Numa gravidez depois dos 35 anos de idade, o risco de aborto é ainda maior do que na casa dos 20.

Há o risco de se ter um bebé com certos defeitos de nascença que envolvam deficiências genéticas devido ao mau desenvolvimento dos cromossomas é maior, tal como o síndrome de Down.

Algumas complicações comuns numa gravidez depois dos 35 anos são:

  • Diabetes gestacional: Uma mulher com mais de 35 anos de idade tem 2 vezes mais probabilidades de desenvolver diabetes gestacional no 1º trimestre da gravidez.
  • Tensão arterial alta: é uma condição mais comum em mulheres com mais de 35 anos de idade. A tensão arterial alta pode desenvolver-se no 1º trimestre da gravidez, também conhecida como hipertensão na gravidez ou no seu estado mais grave pré-eclampsia.
  • Problemas com a placenta: Um dos problemas mais comuns relacionados com a placenta é a Placenta
  • Prévia que implica a implantação da placenta no colo do útero (a parte interior do útero) ou perto do mesmo, podendo a placenta cobrir o orifício do útero (cervix) de forma completa ou parcial. Depois dos 35 anos de idade a probabilidade de surgir esta complicação é 2 vezes maior. Este problema pode causar graves hemorragias durante o parto, podendo colocar em risco a mãe e o bebé, no entanto pode ser prevenido muitas vezes com recurso a uma cesariana.
  • Parto prematuro: Um parto antes das 37 semanas de gravidez é considerado um parto prematuro. Uma mulher acima dos 35 anos de idade tem maior probabilidade de ter um parto prematuro. Os bebés prematuros têm maior risco de desenvolver problemas de saúde. Uma mulher com mais de 35 anos também tem maior risco de dar à luz um bebé com peso abaixo do recomendado.


2 - É possivel fazer desporto durante a gravidez depois de uma certa idade?

A prática de exercício físico está recomendada para a maioria das grávidas mesmo depois dos 35 anos. É fundamental durante a gravidez pois traz benefícios tanto para a mulher como para o bebé. Alguns dos benefícios são: atenuação de efeitos associados à gravidez (fadiga, edemas, varizes, stress e ansiedade), controle do peso corporal, melhoria da função cardiovascular, manutenção da massa muscular, prevenção e diminuição das complicações obstétricas (diabetes gestacional, aumento de tensão arterial), para além de facilitar a recuperação pós-parto. A sua prática regular durante a gravidez contribui para o desenvolvimento saudável do sistema nervoso do bebé.

Porem há algumas situações em que a sua prática é contraindicada: gravidez sem acompanhamento médico, doenças cardíacas, tensão arterial alta, pré-eclampsia (risco de eclampsia), placenta prévia (risco de descolamento da placenta), gravidez múltipla, feto com crescimento inadequado, hemorragias uterinas (permanentes no 2º e 3º trimestres), rutura de membranas antes das 37 semanas, incompetência cervical (pelo risco de parto prematuro);


3 - Quais são os exercícios mais aconselhados? E os que não são de todo?

20 - Há alguns exercícios especificos desaconselhados na gravidez?


Os exercícios mais adequados são aqueles que promovem a mobilidade geral realizados em condições de segurança, como por exemplo a caminhada em superfícies regulares (estimula o encaixe correto da cabeça do bebé); Idealmente deve-se caminhar 30 minutos por dia, aumentando bastante o número das caminhadas e o tempo das mesmas nas últimas semanas.


Exercícios dentro de água (embalam o bebé na barriga da mãe e ajudam-no a posicionar-se), também aliviam o peso das articulações da mãe. Recentemente surgiram preocupações referentes aos efeitos do cloro durante a organogénese (período de formação dos órgãos – 1º trimestre), existem relações entre o cloro e a asma. O mais seguro é praticar exercícios aquáticos em piscinas tratadas com ozono. Caso esta opção não esteja disponível, as gravidas não devem estar expostas mais do que uma vez por semana em piscinas com cloro.

Os exercícios que não são de todo adequados são: exercícios extenuantes, exercícios que desafiem o equilíbrio, exercícios de alto impacto, exercícios realizados na posição deitada de barriga para cima a partir do 1º trimestre.
Devem ser evitados os exercícios que incluam saltos, subidas e descidas, empurrões, mudanças radicais de direção, ou que ofereçam riscos de lesão na zona abdominal, desportos coletivos ou de combate, atividades competitivas, atividades em elevada altitude (+2500m), desportos como o esqui, mergulho, e a equitação.


4 - Quais os testes que são aconselháveis fazer?

É aconselhável realizar os testes de vigilância que se fazem em qualquer gravidez: análises clínicas, marcadores bioquímicos, ecografias, CTG’s. A partir dos 35 anos alguns médicos poderão sugerir realizar exames invasivos que não são obrigatórios e acarretam algum risco como a biopsia das vilosidades coriónicas e/ou a amniocintese com o objetivo de despistar eventuais anomalias cromossomáticas do bebé, diagnosticando assim doenças genéticas especificas.


5 - Quando é que a possibilidade de se ter filhos começa a diminuir?

Após os 35 anos, a fertilidade diminui drasticamente (de tal forma que uma mulher de 35 anos tem apenas metade das probabilidades de engravidar comparativamente a uma mulher de 20 anos);

 

6 - Depois do pós parto quando se deve começar a praticar desporto?

No pós parto, há que ser cauteloso com o tema do desporto para começar a recuperar a forma, é importante dar um tempo para descanso. Não se deve começar a praticar desporto pelo menos até passar a quarentena, sobretudo se o parto tiver sido por cesariana.

 

7 - Em que medida se pode prevenir alguns riscos?


É fundamental começar a trabalhar os músculos do períneo logo após o nascimento do bebé, e ser persistente na realização destes exercícios. Problemas como a incontinência urinária e fecal, prolapso dos órgãos, disfunções sexuais podem resultar da flacidez do períneo e para evitá-los, é preciso exercita-lo.

Quando a mulher começa a recuperar das mudanças e do cansaço próprios do parto, pode começar com passeios que não sejam intensos. É importante ir gradualmente e em qualquer caso evitar ir ao ginásio extenuar-se. Deve começar a um ritmo ameno sempre realizando exercícios suaves.

Até aos 5 ou 6 meses pós parto a mãe não está em condições de começar um trabalho de contracções abdominais, tanto rectas como oblíquas.


8 - Amamentar ajuda a 'colocar o corpo no lugar'?


A amamentação estimula a contração do utero e faz com que este regresse a um tamanho mais próximo do que tinha antes de engravidar. O acto de amamentar faz com que a mulher gaste em média mais 500 - 600 calorias por dia. Porém amamentar dá sede e aumenta o apetite, por isso a alimentação deve ser bastante equilibrada e cuidada.


9 - Qual o peso ideal numa gravidez?


O peso ideal que se deve aumentar numa gravidez depende do peso que a mulher tem quando inicia a gravidez. Tendo como referencia o índice de massa corporal (IMC) uma mulher que esteja abaixo do peso ideal (< 18,5 kg/m2) pode aumentar entre 13 e 18 kg; uma mulher com peso normal (18,5 a 25 kg/m2) pode aumentar entre 11 e 16 kg; uma mulher com peso acima do normal (25 a 30 kg/m2) pode aumentar entre 7 e 11 kg e uma mulher obesa (> 30 kg/m2) pode aumentar entre 5 a 9 kg.


10 - Deve comer-se de tudo ou algo que se deva evitar?


Há alguns estudos que aconselham excluir certos alimentos durante a gravidez como o trigo e os hidratos de carbono refinados (chocolate, pão, bolachas) e no último mês, o glúten. O trigo é conhecido por favorecer a retenção de líquidos. O edema da pélvis é muitas vezes a causa subjacente a trabalhos de parto complicados, o trigo pode ser um dos maiores culpados, congestionando os tecidos da vagina e impedindo o colo do útero de dilatar e alargar suavemente. Alguns estudos indicam que as mulheres celíacas (intolerantes ao glúten), têm experiencias de parto incrivelmente curtas.

O açúcar também é problemático. Ele é metabolizado, e liberta muitos radicais livres durante o seu processo de metabolização. O corpo tem dificuldade em neutraliza-los e eles atacam o tecido conjuntivo como os músculos, os tendões e os ligamentos. Quando se está grávida, os ligamentos pélvicos precisam de estar muito maleáveis e flexíveis. Por isso evitar o açucar e os alimentos açucarados pode evitar que as toxinas se depositem no útero, no colo do útero e nas estruturas pélvicas.


11 - O sexo na gravidez é aconselhado?


O sexo durante a gravidez é seguro durante a maior parte do tempo. Nas gravidezes de baixo risco, não há qualquer impeditivo para as relações sexuais. Contudo, caso seja diagnosticada uma gravidez de risco, a mulher poderá ser aconselhada a abster-se de ter relações sexuais. Isto pode acontecer, por exemplo, quando existe historial de abortos espontâneos, caso já tenha ocorrido um parto prematuro em gravidezes anteriores, em casos de placenta prévia, incompetência cervical, rutura precoce da bolsa, hipertensão arterial, pré-eclampsia, pouco líquido amniótico, e ainda hemorragia ou corrimento vaginal inexplicado.


12 - Os cursos de preparação para o nascimento são recomendados?


Os cursos de preparação para o parto são recomendados a todos os casais que estejam à espera dos seus bebés. Estes cursos são pensados para preparar os casais de forma a melhor poderem desfrutar da fase da gravidez, preparar o parto e facilitar o nascimento do bebé, e ajudar o casal na preparação para a viagem da parentalidade.


13 - O que se aprende num curso destes?


Estes cursos têm uma componente prática e teórica onde exploramos vários temas.


A preparação física inclui:

  •  exercícios focados nos cuidados posturais, para minimizar alguns dos desconfortos associados a esta fase como as dores nas costas.
  • exercícios de descontração muscular para aliviar o stress e relaxar. Técnicas de massagem e de auto-massagem. 
  • exercícios respiratórios que asseguram uma melhor oxigenação do sangue, permitindo tornar as contrações mais eficazes ao longo do trabalho de parto;
  • exercícios para treinar os músculos do períneo de modo a prevenir situações de incontinência urinária e fecal (quer na gravidez quer no período pós-parto), e melhor controlar a fase da expulsão; As grávidas que efetuam estes exercícios correm menos risco de sofrerem cortes ou rasgaduras vaginais;
  • posições confortáveis a adotar durante o trabalho de parto.

 

A parte teórica incide em vários temas:

  • anatomia e fisiologia da gravidez, parto e
  • pós-parto para esclarecer tudo o que acontece e acontecerá com o corpo
  • cuidados a ter com a gravidez: na prática de exercício físico, na alimentação, no alívio de incómodos, no tipo de vestuário;
  • o que é preciso levar para a maternidade, sinais de parto, sinais de alerta, tipos de parto possíveis;
  • esclarecimento das rotinas e do ambiente hospitalar;
  • desenvolvimento de competências nos cuidados ao bebé: amamentação; higiene; regras de segurança; massagens para as cólicas;
  • organização do pós parto: cuidados de higiene, vestuário, exercício físico, dieta, prevenção da depressão, planeamento familiar.

 

14 - Quanto tempo depois podemos dizer que estamos em forma? Existem pessoas que nunca mais recuperam de uma gravidez?


Podemos considerar que estamos em forma a partir dos três meses após o parto, período que o corpo precisa para que os órgãos “voltem ao seu lugar” e haja estabilização hormonal decorrente da fase da gravidez. Contudo o regresso ao peso depende de vários fatores. Há mulheres que um mês depois de darem à luz têm o mesmo peso que tinham antes de engravidar, porém com outras o processo é bem mais lento. A recuperação física no pós parto depende de muitos fatores: se a mamã manteve regularmente uma boa condição física antes e durante a gravidez; do peso antes de engravidar; se aumentou corretamente de peso ao longo da gravidez; dos hábitos alimentares durante e depois da gravidez; se está a amamentar; se pratica atividade física; do suporte familiar e social.


15- É recomendável um treino personalizado ou acompanhamento mais assíduo para que ficar em forma?

Em muitos casos e quando há essa possibilidade, um treino personalizado ou acompanhamento mais assíduo é uma mais valia e uma grande ajuda no retorno à forma.

 

17 - Em Portugal existe um bom acompanhamento na gravidez?

Regra geral sim


18 - É possivel ficar-se incontinente por causa de uma gravidez? Quais as soluções?


A gravidez e o parto constituem fatores de risco para o aparecimento da incontinência urinaria. Porem a maior parte dos casos de incontinência que surge durante a gravidez é temporária. Com o final da gravidez e a estabilização hormonal e mecânica, a maioria das mulheres recupera a continência. Partos vaginais demorados, com bebés mal posicionados ou de peso superior a 4 kg, bem como a utilização dos fórceps e ventosas, podem ampliar significativamente o risco de aparecimento deste tipo de problema. Como soluções para o tratamento da IU deve-se começar por realizar umas sessões de Fisioterapia, um tratamento conservador não invasivo centrado na reabilitação dos músculos do períneo (conjunto de exercícios físicos para fortalecer estes músculos) com o objetivo de restabelecer o suporte da bexiga e da uretra.

Estes exercícios devem ser ensinados durante o período da gravidez. Idealmente as mulheres deveriam realizar estes exercícios logo desde o inicio da gravidez, todavia os estudos demonstram que quando realizados nos 2 últimos meses de gravidez e nos 4 primeiros meses de pós parto há uma maior probabilidade de manter a continência durante e apos a gravidez. O Fisioterapeuta, a trabalhar na área da saúde da mulher, dispõe de um corpo de saberes e competências para ajudar a prevenir e a tratar este tipo de situações.


19 - Quando não se consegue engravidar o que se deve fazer? As desportistas têm mais facilidade /dificuldade em engravidar?


Quando não se consegue engravidar, muitas vezes pensa-se logo em métodos complexos como a fertilização em vitro, inseminação artificial, entre outros.

Na realidade, a solução muitas vezes é mais simples do que se imagina. Uma alimentação inadequada, excesso de peso, stress, alterações emocionais e o tabaco são alguns dos fatores que alteram a fertilidade do casal. Existem muitas terapias naturais que podem ajudar no controle destas situações (ou mesmo uma terapia para diminuir a ansiedade).

Quando a mulher planeia engravidar e não consegue, o melhor é procurar ajuda especializada e realizar todos os exames para se perceber se está tudo bem. Caso não dê certo, há sempre a hipótese de se recorrer aos métodos de reprodução medicamente assistida.

As desportistas que praticam exercícios extenuantes, como corridas de longa distância, podem ter como consequência a amenorreia (ausência de período menstrual). Isso ocorre quando o nível de gordura do corpo cai a níveis inferiores àqueles necessários para ajudar na ovulação. No entanto há mulheres que mesmo com uma rotina de atletas continuam a ter a menstruação regularmente.

As mulheres que pretendam engravidar devem reduzir o seu nível de exercício para intensidades mais moderadas.

 

21 - Quais as vantagens e desvantagens da cesariana versus parto normal?


O parto normal é a melhor opção e só deve ser substituído pela cesariana nas situações específicas de risco.

O parto normal tem muitas vantagens: Maior vinculação mãe-filho, com a participação ativa da mãe no nascimento de seu bebé; menor risco de infeção; sem cicatrizes aparentes; sem implicações nos futuros partos; recuperação pós-parto mais rápida e sem dores; a alta hospitalar e o regresso a casa são mais rápidos, o que possibilita à mãe regressar mais cedo ao seu ambiente; maior incentivo à amamentação em função da elevação hormonal provocada pelo trabalho de parto e maior tranquilidade da mãe.

Para o bebé as vantagens do parto normal consistem em: vínculo imediato com a mãe; melhor adaptação ao ambiente extra-uterino; melhor eliminação dos líquidos pulmonares; bebé nasce no momento em que está realmente pronto, acomodando seu sistema fisiológico de forma leve e não brusca. Quando o parto evolui naturalmente, não existe qualquer desvantagem para o bebé.

As desvantagens do parto normal para mãe, estão na maioria das vezes relacionadas com manobras e intervenções efetuadas desnecessariamente pela equipe médica, podendo envolver possíveis danos ao períneo, uretra e ânus, incontinencia urinária e fecal.

As vantagens da cesariana para a mãe, consistem num nascimento menos demorado, poder decidir a data do nascimento e ter o médico que a acompanhou durante a gravidez disponível.


As desvantagens da cesariana para a mãe são: mãe passiva no momento do nascimento do seu bebé; recuperação pós parto mais lenta o que atrasa um pouco o processo da amamentação, período de internamento maior, o que atrasa o regresso da mãe ao seu ambiente; maior risco de infeção, inflamação, rutura uterina, hemorragia, com risco muito superior de morte materna comparativamente ao parto normal; necessidade de retirar os pontos externos; implicações nos partos futuros, pois o útero forma uma cicatriz que pode representar um ponto mais frágil e, a cada cesariana realizada, os riscos de complicações aumentam.

As desvantagens da cesariana para o bebé são: maior risco de desconforto respiratório, maior risco de pneumonia; possível necessidade de intervenções como aspiração naso-gástrica, reanimação, entubação e respiração artificial; atraso da primeira mamada e na formação do vínculo materno.

Porém, nalguns casos a cesariana é mesmo necessária: hemorragias no final da gravidez; desproporção céfalo-pélvica; sofrimento fetal; descolamento prematuro da placenta (que leva a hemorragias e falta de oxigenação); eclâmpsia ou pré-eclâmpsia, diabetes gestacional; insuficiência placentária; grávidas portadoras do vírus HIV; posição da criança não adequada (em vez de estar de cabeça para baixo, está sentada); quando não houve boa dilatação do colo do útero; a bacia da mãe muito pequena, não permitindo a passagem da criança; quando a criança é muito grande;


Lídia da Silva Farinha

Fisioterapeuta Especialista em Saúde da Mulher

fisioterapeutalidia@gmail.com